À gente gay ou Homens se pegando "Apparaît la tentative inavouée pour s’évader vers ce qu’une erreur initiale de la société a placé loin de lui." Marcel Proust Sem trama, sem ponto, sem significado - ou na sigla em japonês YAOI - é o pilar filosófico da pornografia gay japonesa. Por quê adoramos, como em Heated Rivarly, ver homens se pegando ou, neste caso em específico, um molde de corpo bem delimitado se pegando? Primeiro, por quê falo disso? Sou a favor de cada um falar do seu, evitando assim intrigas originadas da falação de merda dum sobre o outro - deixo, portanto, as mulheres pros e pras ginéfilas. A androfilia é meu único campo de estudo - não significando, claro, que eu crucifique ou ache indecente falarmos e supormos a respeito do que jamais experimentamos e, ao contrário, é tarefa nobre intentá-lo e buscar compreender a sina alheia, mas nunca se tomará por palavra final aquela saída da boca dalguém externo, e nem só do interno. Usando a lei do bom-senso e da razão, há poucas chances dalgo dar muito errado. Um refugiado que meramente vivia sua vida pode não saber as causas geopolíticas e históricas por trás da guerra que o forçou a deixar seu torrão, estas que um geopolítico saberia, mas, por sua vez, seria a este desconhecida a verdadeira dor do refugiado e sua experiência: duas faces são precisas pra uma moeda. Cada um paga o preço de se ser e de trazer consigo sua única visão, e não a do universo. Por isso, tantos de meus escritos são andrófilos. Isso e porquê sou tarado, mas num nível razoável. Enfim, alguns héteros perguntam-se porquê 'mulheres', como um todo em suas cabeças, gostam de yaoi. Bem, por resposta posso dar que é pelo mesmo motivo que todos gostamos de ver sexo. É uma luta de dois corpos que se podiam destruir mas, em vez disso, se unem abraçados pelo Mistério da Natureza. Com dois homens isso é tão-somente mais visível, sendo ambos portadores de testosterona e capazes de se matar no soco, dado o suficiente tempo e contexto: por isso o tão específico tipo de corpo padronizado musculoso é o visto nas telas. Muitos o problematizam, e não sem razão. É rápida, com a internet, a busca pelos homens considerados mais bonitos do Japão, da Nigéria e da Índia, e igualmente fácil perceber a inexistência de muita semelhança entre eles. Homens héteros, a exemplo alheio, tendem a sentirem-se atraídos por mulheres com cintura mais estreira que o quadril, mas isso menos em regra rígida e mais em proporção, que seria cintura/quadril=~0,7 além da noção de busto maior que o quadril. Pras mulheres serem atraídas por homens, seria a cintura estreita, torso em V e ombros largos. Ressalvas há por parte de muitos contra isso. Notória a semelhança da cintura, talvez originando nosso costume ocidental de pegarmos os que amamos por ela. Os ombros, inclusos no busto, ouso dizer, são também apreciados por ambos os sexos; a meu ver, homens também gostam de ombros femininos e não só porquê neles vê-se a presença ou ausência do sutiã, mas por serem considerados atraentes mesmo; do contrário, nem todas as danças sexistas estimariam movimento dambos nos dois sexos. Enfim, deixados de lado os pontos básicos, há sempre apropriação e adaptação disto a cada cultura e caso. Por isso, os corpos masculinos mostrados no Heated Rivalry e em qualquer obra similar são acusados de propagar os ideais limitados duma só cultura; por isso mesmo, tentando desviar-se dessa imagem, deu-se ao aspecto asiático-canadense uma grande importância. jogo de mídia, claro: sempre o há. Depois da natureza da filosofia, o primeiro a aceitar os gays foi o capitalismo já que, como Alexandre Linck diz, "Se amanhã nazismo for cool, o Deadpool vai tá fazendo saudação a Hitler". Embora não ache mau suprir as fantasias da maioria, não se pode nem deve fingir que são as únicas possíveis. Há um espectro muito grande e gradativo dentro do atraente físico pelo qual somos, homens ou mulheres, héteros ou não, capazes de nos atrair. No #Pirula 92.1, fica claro o exemplo dum cara que ficou com uma menina gorda, e digo gostando de fato, atraindo-se sexualmente, abafou o caso simplesmente porquê não é bem aceito em nossa sociedade. Com gays dá-so também: M. de Charlus era obeso, bem como Magnus Hirschfeld. O contraste é o motor da atração. Homens mui parecidos quererem-se, como quaisquer pessoas parecidas, é-me pouco natural. È confirmação espúria da suspeita de Paulo que a homossexualidade é possível sintoma de narcisismo. A sociedade atual ensina-nos odiamente a querer apenas quem pensa e é em tudo igual a nós. É por isso mais difícil muita gente hoje manter relações sociais tão profundas. A atração real das pessoas não mudará do dia pra noite, e embira saibamos ser importante algum nível de representatividade, a espontaneidade deveria ser mais levada em conta. O Queer aas Folk britânico é sempre melhor neste quesito pois, mesmo os tr~es principais sendo considerados 'padrão', o japonês e Alexander (como efeminado) têm melhores espaços. Não creio que causará vigorexia a imagem padronizada de homens como os da série. Acho horríveis e execráveis a grande maioria das cirurgias estéticas. São completas abominações. Outro assunto que diz respeito á gente gay é o chamado queerbaiting. Novamente: o capitalismo ama quem tem dinheiro, gay, hétero, nazi ou comuna. Com empresas é plenamente aplicável este conceito. Com pessoas, porém, não. Com atores, a situação é que, como na população absoluta, a minoria é gay, e os grandes papéis gays serão fatalmente em maioria feitos por héteros, e são alguns que se sentem confortáveis fazendo-o; perfeitamente compreensível. Não é necessariamente querer comprar a atenção dos babões, mas a mero conforto em fazê-lo. Há pessoas que podem escolher pegar só a parte legal de determinada coisa; pra outros, porém, a Natureza se virou e disse: "hoje não, amigo". Não me parece muito justo, mas que fazer? Claro, há vantagens; falar sobre sexo com menos trava; ser pouco afetado pelas relações sociais do alvo de desejo, pois homens têm relações menos complexas que as mulheres; e só. De resto, se o dinheiro não te jorrar de fontes, tua vida será miserável, e quem amas nunca o saberá, e o contrário de amor não é ódio, mas indiferença. Somadas todas as mazelas, não é surpresa matarmo-nos tão mais que os outros homens. Se minha vida não tivesse sido olhá-lo e sentir seus movimentos, minha alma seria morta, certamente, mas meu corpo teria ainda metabolismo e faria a bomba de potássio - mas 'vivo' seria demais. "Foi seule me parus ce qu'on cherche toujours." 10/12/2025