A troca de Locard, ou as verdadeiras raízes da hibristofilia "A su comprendre et exprimer qu’une même passion prend des aspects radicalement contraires suivant qu’elle éclôt sur tel ou tel terrain." Edmond Locard A hibristofilia é tema sobre o qual raramente tem-se lançado as luzes da ciência. A despeito de invenção do questionabilíssimo John Money, o termo foi bem composto, e pode ser muito bem usado. Os que mais convivem com este tipo de coisa são, certamente, os atuais e tão numerosos produtores de conteúdo denominado true crime. É necessário até mesmo, em muitos vídeos, como os do canal do Youtube @PsicologiaCriminalOficial, a existência sempre dum disclaimer dizendo que nada se glorifica dos atos retratados; e chegarmos ao ponto disto ser preciso é risório. Mais que tudo, é preciso, antes de julgar estas pessoas, ter noção das origens de tal paixão hoje tão viva num grupo pequeno mas assíduo de gente, em geral adolescentes. Irei primeiro esclarecer o porquê de não me debruçar tanto sobre a Velha Hibristofilia, isto é, a por serial killers. Muito famosos foram os casos como o de Ted Bundy, bem como suas cartas de apaixonadas (incluindo uma jurada de seu processo). Os serial killers são ou ao menos eram mais fáceis alvos da parafilia alheia por, dentre outras coisas, tantas vezes haverem sido os próprios portadores de desvios sexuais. As 'outras coisas' eram, por exemplo, no caso de Bundy, além da aparência como encarnação dum galã de seu tempo, a lábia, o sorrisinho, e a forma de falar e agir parecendo sempre no controle mesmo às mãos policiais, de tamanho o conhecimento do processo legal e do que consigo ocorreria. Amamos gente que esteja no controle das coisas e o demonstre largamente, por isso as paixonites por professores e superiores e nada muito parecido com políticos, já que estes, como se já não velhos, não se mostram muito no controle, tendo-o apenas um grupo que nunca vemos de lobistas. Por quê? Porque, na selva donde viemos, quem tem controle tem tudo. Mulheres são também mais hibristofílicas; bem entendido. Em casos como o de Dahmer, Ramírez, maníaco do parque, etc., vêm sempre deste aparente controle. No caso do canibal, inclusive, como em muitos outros, vêm talvez a atração duma frágil conjugção de fatores como aparência, conhecimento do controle pregresso que tiveram sobre suas vítimas, afinal mataram-nas, e da mera exposição. Diziam muitos que vinha tão-somente da aparência e, alguns chegavm mesmo a comentar "como pode se apaixonar /mesmo/ sabendo o que ele fez?" quando, na realidade, é mais prudente considerarmos que a atração dá-se não, como na enfatuação, apesar dos defeitos, ou como no amor, com eles, e sim, por ser uma parafilia, /por causa/ deles. Seria improvável, de tão raros os criminosos que chegam a assassinar em série, que tantos fossem, como são, alvos de filia, se acharmos esse argumento do simplesmente 'lindo demais'. Isto nos leva à lábia, que é em si bem forte, mas ainda insuficiente. Dahmer, há poucos anos desejado por gays e até mesmo mulheres, não era nenhum Rui Barbosa da comunicação, tampouco tinha o aparente controle dum Richard Ramírez, Charles Manson ou Ted Bundy. Em suas entrevistas, demonstrava o canibal muito mais responsabilizando-se (imagino, querendo passar-se por 'responsável') e passar uma imagem de erudito articulado. Muitos focarem, sim, como a cena do 'I'll eat your heart' e, mais importantemente, sua vida pregressa. Este é o ponto mais importante; guarde-o. Mas por quê esta atração por serial killers é o que chamo Velha Hibristofilia? Simples: não são mais estes que ocupam as fanarts de adolescentes, se algum dia foram. Nestes casos, ao que parece, a maioria das atraídas por esses caras eram mulheres minimamente adultas. Além disso, os serial killers não existem mais. As tecnologias forenses e avançadas técnicas policiais, que tanto evoluíram devido ao pr´prio número de vezes que indivíduos assim atuaram, dentre muitos impeditivos, fazem da vida dos aspirantes a assassinos seriais um verdadeiro inferno, impossibilitndo quase sempre o sonho. Se hoje existem, seus julgamentos são fechados e seus métodos tão modernos que perderam a 'personalidade' do modus operandi e da engenhosidade dos crimes. Albino Santos de Lima, o último serial killer brasileiro que conheci, planejava sus assassinatos sob encomenda pelo whatsapp. Enfim, o presente (e talvez mesmo o Futuro) é duns outros criminosos hoje tão mais frequentes e, mais importantemente, gente como a gente, adolescentes, com infâncias problemáticas e, como mostrarei ser importante, não criminosos que atuaram por muitos anos nem nada, mas jovens um tanto normalmente desviantes que cometeram um único ato que os imortalizaria. Falo, claro, dos atiradores escolares: estes, sim, são os protagonistas do Pinterest, Tumblr e AO3 modernos. Estes casos eram, antigamente, extraordinários. Brenda Spencer, Walt Whitman (este adulto) e Kip Kinkel foram reconhecidos somente após Columbine, bem como seu famoso efeito. Aqui, vale minha literariedade. * A presente epígrafe foi extraída do primeiro duma série de artigos de crítica musical publicados por Locard (que por acaso era também pai da ciência forense) a respeito da superioridade ou, ao menos, inovação de Richard Wagner em relação aos músicos antigos, demonstrando como os temas musicais dantigamente em situações drasticamente distintas eram parecidos demais. Enquanto isso, nas óperas wagnerianas, mesmo em ocasiões superficialmente similares, os motivos eram justamente distintos, cada um propício à própria circunstãncia narrativa. Por isso, muitos ouvem o alemão quando suas emoções concordam com a complexidade romântica dos sons. Foi este mesmo Wagner o autor da peça Liebestod, do final de Tristão e Isolda, que tocava em caixas de som quando a polícia chegou à residência dos Kinkel em 21 de Maio de 1998, após o filho daquela família ter feito um massacre na escola donde fora expulso, isto, claro, depois de ter matado os pais. Dentre os pontos mais importantes de sua biografia que supostamente levaram-no a fazer o que fez estava a desilusão amorosa, e em seus escritos consta o seguinte: "I really wouldn’t know how to answer this question because my cold black heart has never and never will experience true love. I can tell you one about love. It does more harm than good. I plan to live in a big black hole. My firearms and [illegible] will be the only things to fight my isolation. I would also like to point out Love is a horrible thing. It makes things kill and hate." Além de um trabalho sobre Romeu e Julieta, além de ter sido fã do filme do Leonardo DiCaprio. Suas fotos sem camisa logo após seu detimento, seu interrogatório quase todo chorando (e de verdade, não falsamente), transparecendo sentimentalismo (além do amor por Romeu e Julieta) e, principalmente, sua história de garoto incompreendido devido a um interesse por armas e bombas, que quando jogou pedras num carro e foi detido chorou perguntando se alguém fora ferido; tudo isso contribuiu para sua hibristofilização. Diz-nos Katherine Ramsland: "Some believe they can change a man as cruel and powerful as a serial killer. Others 'see' the little boy that the killer once was and seek to nurture him. A few hoped to share in the media spotlight or get a book or movie deal. Then there's the notion of the 'perfect boyfriend'. She knows where he is at all times, and she knows he's thinking about her. While she can claim that someone loves her, she does not have to endure the day-to-day issues involved in most relationships. There's no laundry to do, no cooking for him, and no accountability to him. She can keep the fantasy charged up for a long time." E, enquanto são verdadeiras as palavras, estão com suas prioridades confundidas. "Cruel and powerful" são justamente as características dum criminoso que seus seguidores prefeririam manter, muitas achando, inclusive, que estariam seguras ao lado deles. /Others 'see' the little boy that the killer once was and seek to nurture him./ /Esta,/ sim, é a frase mais correta para se aplicar tanto aos hibristos por seriais quando por sprees. Os spree killers como atiradores escolares têm, no entanto, diferentemente dos serial killers, uma história de vida que culmina num único ato, em vez duma sucessiva ficha criminal, ao menos não com humanos de carne e osso cara a cara. Importante é o ponto, que parece aplicar-se até aos assassinos de vez única como Wade Wilson, famoso por sua legião de seguidoras. Ter sido um só caso, como que 'deslize' nalguns destes (mas não nos atiradores escolares, sendo pra estes uma espécie de martírio, e chegarei lá), reforça a ideia de que seria possível mudar /isto./ Estas parecem, aliás, serem a preferência dos hibristófilos homens (héteros, digo) - a citar os casos de Yuka Takaoka e Alyssa Bustamante (esta sobre quem já vi uma edit ao som de "INFERNO", de Bella Poarch). * Eric e Dylan de Columbine fizeram vários vídeos mostrando sua vida cotidiana e ideias sobre tudo. Ao contr´ario do que pensariam alguns, é muito fácil enxergá-los como heróis quando se é um tantinho que seja como eles, tal que há inúmeros arquivistas de seus escritos, sites à sua memória, escavadores e preservadores de fotos, datas e documentos dos mais diversos. Há um site de 2011 ainda vivo, o https://ericanddylan.yolasite.com/, mantido pela usuária Sasha, do qual extraio de sua página inicial: "This is a website honoring Eric David Harris and Dylan Bennet Klebold. On this website, you will find a number of fun and informative articles and sections on two boys who were so great to our generation. There is a section for those to look back and observe photos of Eric and Dylan. There is a section filled with polls and quizzes for Eric and Dylan followers. There is a comic strip section for Eric and Dylan followers to see what could have possibly happened to and with Eric and Dylan during their last days at Columbine High, according to reports from several people who were with Eric and Dylan during their days at Columbine High. There is also a fanfiction section filled with fanfiction stories of Eric and Dylan submitted by myself as well as fanfiction submitted by others. There is also a section that includes video and audio footage of Eric and Dylan. There is also a section where true Eric and Dylan followers can play the created game "Who Want's to Be Eric and Dylan?" So enjoy this page and remember, Eric and Dylan were the heroes of our generation." Isto é, como promete o url, REB&Vodka pra quase todo gosto. Até agora, parece um apreciação meramente ideológica, como ao eu tudo indica nutriram-lhe Pekka Eric, o NaturalSelector89, Randy Stair, o Andrew Blaze, e Adam Lanza, o Smiggles. No entanto, atualmente, uma importante parta do imenso fandom de Columbine, o primus inter pares, o princípio do fim, é a das fanficcionistas e fanartistas. Nalguns casos, fazem-se estorinhas nas quais algum deles (geralmente Eric Harris, cujo rosto e sorrisinho viperinos à natureza parecem inspirar corações desavisados) se relaciona com o leitor, ou mesmo em que ambos se pegam como o casal gay que ás vezes as meninas da escola suponham que eram. Em 4 de Maio de 99, pouco após do massacre, no jornal The Village Voice, Richard Goldstein publicou um injustamente ignorado artigo (cuja até agora única captura no Web Archive foi feita por mim mesmo a 6 de dezembro de 2023) chamado 'The Faggot Factor'. É um texto de fato cheio de exposição dalgumas abobrinhas que consideramos hoje óbvios problemas nas escolas, mas importante pra termos noção de como era o tempo. O fandom de Columbine é repleto de gente depressiva e garotas que se automutilam, e adolescentes diversos que fazem desenhos fofos, edits, e passam soma de seus dias em delírios fantasiosos, tanto platônicos quanto explícitos, a respeito da dupla de rapazes que mudaram tudo sobre a terra. Este fã-clube, parte da famigerada TCC (true crime community), é um dos mais fortes dentro desta que é praticamente uma religião, não raro formada por jovens místicos, como outra seção daquele Yolasite demonstra: "On April 20th, 2011, I will be planning a twelve year celebration of Eric David Harris and Dylan Klebold. The celebration will take place in Littleton Colorado and surrounding areas where Dylan and Eric were. We will tour the actual houses they lived in and go see the actual Columbine High School, as well as other sites that Eric and Dylan visited during their time on this Earth in Colorado. We will also do a Séance to commune with the spirits of Eric Harris and Dylan Klebold and find out where they actually are, are they happy where they are, and to inform them of our presence as us being great admirers and followers of theirs. We will start the trip on April 19th, 2011 and end the trip on April 20th, 2011. I ask that anyone who wants to attend, please keep updated to this section of the webpage as there will be updates about the trip and as time goes on eventually will have an RSVP section for you to sign up to come along on the trip. Despite 4-2-11 being the year after next, as everyone should know, time goes by very quickly, so that’s why I am planning and discussing this now. So keep updated to this section for more updates and if there is anything you’d like to do for and/or on the trip or anyplace you’d like to visit during the trip, please leave a message about it on the section that’s labeled “2011 Séance” on the message board." E existe quem olha, se não com esses olhos cheios do terrível misticismo, com uma genuína atração semi-romântica; isto é, uma relação parasocial. O mais famoso caso é o da DissolvedGirl, Sol Pais, eu matou-se, praa além da vida, que é motivo o bastante, por sua crença de que encontraria Eric Harris no pós-vida. Eu mesmo, se visse impressa uma foto deles naqueles tempos de solidão, não me conteria em levá-la ao peito ou admirá-la castamente como o S. Luís Gonzaga de Goya admirando o crucifixo. Acho que maior que o fandom de Columbine hoje, está somente o de Adam Lanza. * Antes dele, porém um adendo. Nem Seung-Hui Cho nem Kimveer Gill parecem se rhoje alvos de alheia hibristolofilia, a despeito de haverem deixado um legado no quesito de coisas sobre si também. Argumentar-se-á, não sem razão, que os escritos de Hui-Cho são não pessoais, como sói nessa gente, tornando mais difícil a autoidentificação, e que, como Kimveer, era mais velho, por isso diminuindo suas chances de tornar-se sex symbol criminal. Aqui é preciso dizer quem /não são/ alvos de hibristofilia. Mais adultos a hora do ato, como o citado Walt Whitman ou Wo Bom-Kim (comportando todos os spree killers) são alvos de desejo dos adolescentes, tampouco Joseph DeAngelo, serial killer prolífico, mas descoberto á maduro. Nem quando era o Tempo dos Serial Killers os essencialmente pedófilos como Luís Garavito ou Leonard Frasser recebiam cartas de amor, tampouco tem-so sido hoje. E isto não parece ser por conta duma suposta empatia por crianças, visto que as vítimas de Salvador Ramos e Adam Lanza eram-no também, e morreram, inclusive, mas tão-somente pelo tipo do crime. Nestes casos, a natureza quase categorizante dos criminosos exerce influ~encia na atração.