Melhor é exprimentá-lo que julgá-lo, Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo. Camões "Experimentá-lo" é encurtado pra 'exprimentá-lo', mais curiosamente similar a exprimir. Por algum motivo, gosto disso. Pra provar todos meus pontos na desgraça sobre a loquacidade, era bom criar um escrito de meu punho com aquilo tudo, e fá-lo-ei agora, com a obra escolhida sendo os Sonetos de Shakespeare. Almiro Pisetta considera o todo dos sonetos uma comédia do bardo, enquanto eu o tenho por monólogo, isto é, um di´logo ao melhor estilo antigo que, na modernidade, teve como único emulador digno o Córydon de Gide. Dividido pelos dias em que ocorre a conversação o livro, também o faz Shakespeare. Provando-o, farei exaustiva análise. O início do poema, de 1 a 7, (sim, considero-o um poema longo só, como as bucólicas) e portanto da conversa entre o eu-lírico e o Belo Jovem. A cena se dá num entardecer, a cena é provavelmente externa, num jardim com flores potencialmente, já que há uma comparação à rosa, e nos sonetos de procriação em geral, existe aquela ideia da destilação de flores odoríficas, sendo possível sintoma da inspiração vinda do mundo real. Ou, ainda, como imaginei, uma varando donde apenas mais afastado vê-se o jardim, fazendo-se os preparativos pro recolher-se noturno, quando um acirrado turbilhão de ideias domina o gênio. O Poeta está discutindo com seu Amado, com quem a intriga deu-se por um aparente "egoísmo" de não ter filhos, negando à posteridade sua beleza. Este é o soneto 1. Segue-se a cena. No 3 há olhar-se no espelho, indicando luz suficiente pra tal; inda nele, the lovely April of her prime indica ainda ser Abril, mais precisamente o último dia do mês; mais a diante o porquê. No 7, um pôr-do-sol existe, claro, e até aqui temos no cenário um pôr-do-Sol num 30 de Abril dos 1580s na Inglaterra. No 12, the brave day sunk in hideous night indica que o poeta testemunha o ocaso acontecendo, podendo isto inspirar seu argumento no melhor espírito de "veja ali! Isto prova meu ponto!" Literalmente, o início do 12 vem justamente da contagem que o poeta fez á hora do relógio. A partir daqui é noite, e agora, aqueles dois, talvez antes juntos dum bando de amigos enquanto andavam pelas paisagens diurnas, estão já muito imersos um no outro ou, pelo menos, o Amante está perdido no Amado, quer este o ouça ou não. Mas inda houve, quieto, possivelmente irritado, deixando-o falar quase que só. O 13, sim, é o último em que a voz ainda tenta convencer o Belo Rapaz dalguma coisa. Creio que a essa altura ele já tenha deixado a casa, mas foram daquelas discussão ininterrúptas nas quais continua-se consigo mesmo quando os opositores (conquanto queridos) não mais ouvem. Daí em diante, são ruminações do próprias do sujeito e com destino ao nada. Ele ainda vê oportunidade de buscar consolo nos astros, mas censura-se e o recusa de imediato. No 14, as estrelas primeiro aparecem, mas os versos dizem que nelas não se baseiam. No 15, "sullied night". No 17, antes da grande volta inicial, como a dos tercetos num só soneto petrarquista, os papéis mal se lê pela descrença do tempo que virá. O poeta está mal-humorado porquê não consegue nem ler (está de noite, e escuro), nem dormir (como se verá, o sujeito sofre de insônia). Ele enfim apaga sem aviso e desperta tão do nada quanto dormiu, no entanto, desperta com a luz entrando pela janela, num 1º de Maio, observando, portanto, toda a alteração dos tempos. Daí deixa-se de lado toda a escuridão dos céus, as estrelas, a queimação de cabeça, tudo. "The eye of heaven shines", "shall not fade", nor in his shade, são todos sinais dalguém que passou a noite em claro e o tempo que passou sem luz pareceu-lhe a eternidade. Por isso tanta empolgação e embriaguez poética, por isso também agora the eyes can see. Há luz no mundo! E é Maio! Este é o 18. No 21, as flores primeiro nascidas em Abril, já mês passado, ainda estão presentes. No 22, o Poeta olha-se num espelho; luz novamente. Sun delights to peep no 24. Volta a escurecer no 25: lá vêm as estrelas de novo. Foram 7 sonetos desde o amanhecer em 18; também 7 abrangeram a noite: 12-18. Great princes' favourites their fair leaves spread But as the marigold at the sun's eye, And in themselves their pride lies buried, For at a frown they in their glory die. Agora são outros que têm Sol; ele não: novamente, noite. E assim segue minha análise, sem mais muitos pontos relevantes. Deixei tudo isso escrito num bloquinho rosa com 'dialogue' na capa; pegue-o quem quiser. Mais interessante foi que surgiram todas essas ideias na minha primeiríssima leitura dos Sonetos, mas somente quando, pelas duas da tarde de 21 de Novembro desse ano, estando eu em Puxinanã, cansado de ter acordado cedo e com o computador em que assistia Faces of Death agora descarregado, decidi voltar a ler os amores do Bardo. Fiquei muito entediado fazendo-o, tentando pôr no papel cenas tão óbvias em minha cabeça (também isto dando-me preguiça de escrever qualquer coisa), além de mui frustrado, já que iam começar as imagens da Segunda Guerra quando a bateria morreu. Por isso, não me agrada ler poesia escrevendo ensaio ao mesmo tempo, e acabei cochilando. A imagem podia ter virado um retrato romântico. Só penso como podia ter me visto alguém que passasse por aquela salinha: um garoto adormecido com a mão esquerda apoiando seu busto, já que estava numa poltrona, e com a direita segurando, primeiro abraçado, depois quase deixando cair, uma edição dos Sonetos de Shakespeare. Tudo isso na tarde de 21 de Novembro de 2025 em Puxinanã, Paraíba, Brasil, numa salinha escura à minha vontade, que odeio luz acesa de dia mesmo em cantos fechados. Só por ódio, inclusive, nesta peça que imaginei em cima dos Sonetos, o eu lírico, mesmo negando-o, mata-se no 66 porquê, percebendo que fizesse o que fizesse, amasse ou não, suicidasse ou não, o Sol e a Lua sempre continuariam neste ciclo, e o amado ainda podia se encantar coma divertida alternância desses dois, enquanto o Poeta, farto da invariável monotonia regente de sua vida, liberta-se desse mundo. Depois voltei a assistir Faces of Death. É muito bom, mas o fim me deixou puto. 09/12/2025