Melhor vencer do que ganhar "Mais doce é ver-te, de meus ais vencida, dar-me em teus brandos olhos desmaiados morte, morte de amor, melhor que a vida." Bocage Ao escrever seus tratados sobre a arte bélica amorosa, Ovídio explica porquê dedica um de seus livros à leitura das mulheres, dizendo que não haveria qualquer glória pros homens seduzirem as moças caso estes não tivessem armamento também pra bater de frente e, ao fazê-lo, o poeta permitia a continuação da existência dum eterno Jogo de Amor. E, como jogo, com suas regras, ambos os participantes devem estar de acordo. Ao ler as Metamorfoses, entretanto, o leitor moderno, cheio duma ssérie de sensitividades (que mesmo em português difere-se da sensibilidade) infrutíferas, pode ficar bastante desconcertado com tentas narrativas girarem em torno de estupros ou tentativas de estupro. Por isso, é capaz de surpreender que o autor desses livros mitológicos ser o mesmo do verso: /odi concubitus, qui non utrumque resolvunt/ e de coisas sobre consentimento no Ars Amatoria. O amor difere-se dalgumas relações humanas pelo imenso esforço despendido mesmo com pouca possibilidade de retorno. José Guilherme de Araújo Jorge escreveu a seguinte trova sobre a saudade: "Saudade: fruto acre-doce vem a flor do amor que cai... Sem calor: acidulou-se... - só dá, quando o sol se vai..." E os versos trazem-me à memória os trechos do início de Sodoma e Gomorra de Proust que fazem grandes analogias entre um inseto, as partes sexuais da flor e a homossexualidade. O esforço do inseto talvez desse-lhe, na imaginação do autor, mais satisfação. Após atividade física ou qualquer injeção de adrenalina, a satisfação é maior ao final, seja quando suados ou quando tirarmos o excesso dos fluídos aos quais alguns de nós têm nojo (não meu caso, que o aprecio em todas as instâncias). A dopamina, ao menos num cérebro de constituição normal, é liberada não só no momento apicial do prazer, nos casos em que existe (isto é, não só no orgasmo), mas também durante a conjugação de esforços que neles culminarão. Fica claro, portanto, que uma soma do prazer amoroso origina-se do processo e do processo apaixonado. Muitos, porém, que sofrem longos pesares por conta da paixão discordarão, mas certamente só os que nunca chegam nem perto do alvo de seu desejo dirão a inexistência de qualquer prazer nas pequenas vitórias do amante, e isso porquê as desconhecem. Por 'pequenas conquistas' digo dos momentos em que se consegue, por mais rasa que seja, a atenção do ser que amamos. Certamente, vivemos num tempo sem mais os perigos do amor do passado, podendo fazer parecerem mui menores nossos troféus; mas os efeitos do Tempo são incapazes (e por isso talvez chorem à noite) de matar o verdadeiro amor. Por isso, as elevadas criaturas, lendo os antigos, vêem neles suas próprias sinas. Já escrevi que isto é motivo de vergonha, e é mesmo - devíamos conseguir sair da mesma estaca zero, mas não somos. Bocage parece concordar, dado "doce é ver-te de meus ais vencida". Vencida! Até os serial killers, ao passo que experimentam a impunidade, aumentam a violência de seus ataques, tornando-se tolerantes já sem prazer com os antigos hábitos de mero esfaqueamento; mas aqui reside meu ponto. A manipulação e o abuso são as piores formas de ganhar-se algo, pura e simplesmente porquê são só sobe você tendo o que qualquer um podia ter por acaso. Robert Bever disse numa entrevista atribuída a si: "It's very easy to kill someone, there's nothing great about it." O homem que mata ou abusa, ao contrário do que pensa, não é um mártir, herói ou raridade - ele é tão-somente a escória de seu tipo. Qualquer homem pode fazê-lo, e a honra está em não ser fraco a ponto de ceder á barbaridade de sua mente. Por isso, prejudicar não é sinal de força, senão de falta de trava, dum defeito sobre o qual se consegue triunfar com suficiente poder de si, esta tão alta virtude. Até o ímpio (religiosamente) pseudo-bocage concorda, com algumas linhas de soneto: Amar dentro do peito uma donzella; Jurar-lhe pelos ceos a fé mais pura; Falar-lhe, conseguindo alta ventura, Depois da meia noute na janella: Fazel-a vir abaixo, e com cautela Sentir abrir a porta, que murmura; Entrar pé ante pé, e com ternura Apertal-a nos braços casta, e bella: Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos, E a bocca, com prazer o mais jucundo, Apalpar-lhe de neve os dous pimpolhos: Vêl-a rendida em fim a Amor fecundo; Ditoso levantar-lhe os brancos folhos; É este o maior gosto, que ha no mundo "Fazê-la vir abaixo, com cautela e com ternura, e /depois/ vê-la rendida enfim a Amor". Na Empresa Noturna, poema notável também lhe atribuído, tem-se uma maravilhosa descrição sensual que conta com igual imagética de vitória, não de ganho sem esforço: Co'as alvas pernas me apertava as coxas, Titilava-lhe o cono, e reclinada Quasi sem tino a languida cabeça, Chamando-me seu bem, sua alma, e vida, Faz-me ternas meiguices, brandos mimos: Férvidos beijos, mutuamente dados, Anhelantes suspiros se exhalavam: Era tudo ternura; e em breve espaço Ao som de queixas mil, com que intentava Mostrar-me Nise um damno irreparavel, Me senti quasi morto em todo o corpo; Uma viva emoção senti gostosa Dentro em minh'alma: férvidos prazeres O peito vivamente me agitavam: Os olhos, e a voz amortecida, Os braços frouxos, quasi moribundos, Languido o corpo todo, em fim mal pude Saber o que fazia… Eis de improviso Tornando a mim mais forte, e mais robusto, Tentei de novo o campo da batalha: Qual o bravo guerreiro, que se abrasa No calido vapor, que exhala o sangue Que elle mesmo esparziu entre as phalanges De inimigos crueis, que vence, e mata; Assim eu, abrasado em vivo fogo Que de Nise sahia, me não farto. A militia amores, tão comum em Ovídio, com quem Bocage tinha tão fácil diálogo, pode ser também fruto da satisfação que há em lutar aos mais valorosos, que, conquanto com natural medo, não sendo de ferro, percebem mor glória haver em conquistar com as próprias mãos. Tibulo, ao caminhar noite a dentro à procura de Délia, fica com os inúmeros perigos claros na mente, enquanto Ovídio prossegue citando que jamais pensou-se capaz de ter o mesmo curso, mas Vênus ordenou-lhe que fosse também forte. Mesmo assim, /securum in tenebris me facit esse Venus./ Meus amigos, ser reconhecido por seu todo, ou mesmo por um único talento, é o maior gosto deste mundo. quando estou, como agora, na pior fossa, capaz de estourar meus miolos se ao menos fosse dada a arma, meu único conforto é pensar que, uma vez, quando falando com outra pessoa assunto de todo aleatório, do nada surgiu um tema que o fez dizer: "... não, acho que Ladhu é melhor na programação..." E, almas caras, vocês sabem o que é amar a vida? Eu não sei, e nem por isso deixei de senti-lo quando aquelas palavras saíram da boca que guia meus passos. Uma respiração celular em meu corpo não acontece sem pensar nele de primeira. Arrgh, que horror estar vivo. Saber que todos morremos é o alívio que me resta. MORTE, MORTE DE AMOR, MELHOR QUE A VIDA. 09/12/2025